En
Aracati

62’ | HD | 16:9 | Cor | 5.1 | RJ, CE | 2016

"Fazer cinema independente é um gesto político", afirmam Aline Portugal e Julia De Simone

De Bruno Carmelo, em AdoroCinema.com

Uma das melhores surpresas da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes até o momento foi o documentário Aracati, de Aline Portugal e Julia De Simone. As cineastas viajaram ao interior do Ceará, onde um vento muito específico, que dá nome ao projeto, transformou a geografia da cidade e a vida dos moradores.

 

Aracati possui imagens belíssimas e ótimas entrevistas com habitantes locais, combinando ao mesmo tempo o registro realista e a ambição estética. Leia a nossa crítica.

 

O AdoroCinema aproveitou para conversar em exclusividade com a dupla de diretoras:

 

Como surgiu o projeto de Aracati?

 

Julia De Simone: Uma pessoa falou para a gente sobre um vento que passa no Ceará, todo dia, na mesma hora, e as pessoas vão para a calçada esperar o vento passar. A gente ficou intrigada com essa ideia, então viajamos para tentar entender. Escrevemos um projeto na época, mas a gente nunca tinha ido ao Ceará, por isso fomos e fizemos nosso primeiro curta-metragem,Estudo Para o Vento. Esse foi um mote inicial que nos levou a esse lugar, para conhecer o vento e as pessoas. Mas depois esta ideia meio romântica, das pessoas na calçada esperando pelo vento, foi se transformando em outra coisa. Existem muitos outros elementos acontecendo ali. São várias forças: pessoas, vento, natureza, artifício...

 

Aline Portugal: Com a passagem do curta ao longa, nós descobrimos no meio do processo que seria necessária uma temporalidade maior, pelo tempo que o filme propõe. 

 

Julia De Simone: O fato de ter feito o curta foi liberando a gente para ir além. Foi um processo de pesquisa, de aprofundamento. O processo foi crescendo, e o filme também.

 

Como conseguiram representar em imagens o vento? Qual foi o processo, da apreensão realista à construção poética?

 

Julia De Simone: Nós fomos aprofundando o olhar. Por exemplo, os aerogeradores eram coisas que queríamos muito filmar, desde os cata-ventos que filmamos no curta anterior. Isso mostra a transformação da região. Os parques eólicos estão se proliferando, quase não existe mais espaço na costa para colocar os aerogeradores, de modo que estão sendo criadas tecnologias para botar no interior, ou mesmo dentro do mar. Com Aracati, tudo era bastante construído. Como a gente já tinha filmado com uma pequena câmera, entendemos o processo, a linguagem através daqueles enquadramentos. Era questão do que olhar, e como olhar. Nós tínhamos um jogo de lentes, trocando a cada plano. 

 

Aline Portugal: Tenho um pouco de dificuldade com o termo “poético”. Seria a poesia em oposição a o quê? Isso traz tanto a potência plástica quanto as tensões da região, da relação com o espaço. Isso vai junto. Quando se fala em “filme poético”, é como se houvesse um esvaziamento das tensões e do lastro do real que as imagens também trazem. Isso está misturado. A estética produz sentidos, não está fora deles.

 

Julia De Simone: A gente tinha muita consciência que era uma estética que produz sentido. Isso serve tanto para a fotografia quanto para a montagem.

 

Continue lendo aqui

 



El pueblo de la luz y los susurros: imágenes que inventan escuchas 

Por Sebastián Wiedemann, em El Mundo

 

3. Aracati

 

El pueblo de los susurros esta vez encuentra su mayor aliado en el viento. La imagen exprofesamente se propone inventarse escucha de viento. En su inmaterialidad, él se hace presencia que baña por completo a las visualidades y sonoridades. Su imponencia hace que la cámara se disponga prudente y cautelosa a cada movimiento que da. Cámara que en su distancia y medida justa reverencia su fuerza, para que este se pueda manifestar como pueblo que todo lo toca, todo lo mueve, todo lo destruye. Se podrá decir que el pueblo del viento que susurra imágenes también existe fuera de ellas y de hecho la voz del “observador de vientos” nos dirá esto. Pero es sólo en la imagen que este pueblo gana una singularidad como multiplicidad y es su propia multiplicidad la que mueve a la imagen. 

 

La imagen se inventa escucha al percibir las hélices que hacen variar el ritmo del viento, al hacer resonar este pueblo con la voz del “observador” que nos dice que el viento vive al lado del río y nace en las olas del mar, que trae la lluvia y es un ser sobrenatural que se lleva hasta los sombreros. La imagen lo escucha al contemplarlo sobre la superficie de las aguas, al ver cómo hace de las arquitecturas una impermanencia donde la tierra y el polvo entre escombros bailan y se encuentran.

 

Todo cuerpo en la imagen es móvil para que el pueblo susurrante del viento pueda proliferar. La oscuridad de la noche toma la imagen, llevando a las visualidades a su umbral más fino, aun así, esta es motivo para que el pueblo de los susurros se haga uno con el de luz. La imagen comienza a arder. Fuego vivo que pinta al viento de rojo y amarillo. Viento-humo-neblina colorido. Naranja fulgurante que se alza en la oscuridad como pueblo de susurros y luz unidos. Pueblo inmaterial que se ha hecho visible y audible en la escucha de una imagen que no dudó en alucinar la existencia de este y que el “observador” ya afirmaba cuerpo a cuerpo en su murmullo-canción. 

 

Continue lendo aqui

 


 

Travessia e alteração

Por Érico Araújo Lima, em Sobrecinemarevista.blogspot.com.br


E o que era, que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. Do vento. Do vento que vinha, rodopiado, Redemoinho: senhor sabe – a briga de ventos. Quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido do espetáculo” – Guimarães Rosa.


Percorrer a escritura de Aracati, de Aline Portugal e Julia De Simone, é sobretudo enfrentar algumas modulações, que convocam deslocamentos tanto nas relações entre a máquina e o universo filmado – alterações de postura, variações de gestos, desvios de rotas – quanto no engajamento afetivo do espectador frente aos desenhos coreográficos que a travessia vai solicitando. Perseguir o movimento do vento, essa tarefa incansável a que o filme se propõe, coloca, pelo menos, dois desafios fundamentais: primeiro, aquele problema básico de como tornar visíveis forças invisíveis (questão tão bem explicitada pelo Victor de Melo, diretor de fotografia, no debate sobre o filme em Tiradentes); o segundo embate diz respeito ao próprio contato com as bifurcações do percurso, com todos os ritmos variáveis e improváveis de uma trajetória, com todo os impasses da espera.


Ao primeiro desafio, o filme responde com uma expressividade das formas que tanto enfatiza uma poesia muda das coisas do mundo, quanto reinscreve na superfície da imagem uma tensão fundamental que desponta nas paisagens percorridas. Se os geradores de energia eólica presentes no litoral emergem violentos e imponentes, rasgando o horizonte, essa imensidão vai sendo cadenciada na cena e na montagem como atmosfera insólita: artifício tanto da situação mesma, quanto da fratura criada pelo filme, que recoloca o trabalho do espectador, levado a experimentar os tons de algo que se aparenta muito com um estranho mundo de foguetes espaciais. 

 

Desse lance primeiro dos dados, parte-se, então, para uma travessia que, estando às voltas com o espaço do sertão, não deixa de ser também mitológica, mágica, rosiana. A fábula do homem que convoca o vento com o canto vem justo reforçar esse clima misterioso que faz camada também pelas veredas do Aracati, vento e filme. Mas se esse universo mítico tem sua espessura na cena, não há como fugir do perigo do viver – o real vem bater à porta. É quando surge aquele segundo desafio, o das bifurcações, do impasse, das perfurações. Esse real não diz respeito a uma informação que estaria ancorada imediatamente no mundo vivido, porque o real não se trata de representação – pelo menos, segundo a tentativa de conversa que apostamos aqui. Ainda que estejamos, inevitavelmente, diante de um lastro social não plenamente explicado, como o das cidades submersas, da construção de barragens, dos deslocamentos de populações, há uma outra estratégia em conectar a expressividade plástica das paisagens aos mundos outros que reverberam uma pulsação de conflitos.

 

Continue lendo aqui.

 



IDFA 2015 - Competition for Mid-Length Documentary

"The old man by the stream in northeastern Brazil tells us that it takes four hours for the wind to blow across from Aracati to Icó. The same wind drives the windmill farm, sways the sparse trees and chases the dust across the parched earth into the vast expanse of the reservoir. Power lines now crisscross this realm of earth, air and water. This calmly paced and somewhat experimental documentary follows the wind, allowing the landscape time to speak its own language. Along the way, filmmakers Julia De Simone and Aline Portugal encounter people who know what it used to be like around here. A woman sits with a child on the riverbank, pointing to where the road once ran – now there is only water. In an old village, all the houses have collapsed. Only traces now remain of buildings near the reservoir. A cross can be seen poking through the water’s surface. A horseman searching for a stray cow explains that he has always lived in the wilderness. Everything has changed, but the wind and the stories remain. We explore time and space, examine relationships between people and their surroundings, and even reflect on the nature of reality".