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Estudo para o vento

9’30" . HD . Cor . 2011 . RJ, Brasil

Estudo, assombro

por Manoel Ricardo de Lima*

 

                                                             un vento débil

                                                             lleno de rostros doblados

                                                             que recorto en formas de objetos que amar

 

                                                                                                       Alejandra Pizarnik       

 

1.

      Estudo tem a ver com o interminável: não pode e não quer ter fim. Uma imagem radical sobre isso está num trechinho de um longo poema de Joaquim Cardozo – Visão do último trem subindo ao céu – que narra a trajetória assombrada de um trem que arrasta todos os viventes até o inferno, menos o estudante:

 

                            Somente no alto de um sótão brilha uma lâmpada;

                            E, através da janela, se vê um jovem estudante,  

                            – Cabelos despenteados, caídos sobre a testa;  

                            Está lendo: estuda um teorema de geometria. 

 

                            O trem noturno passa.

 

Joaquim Cardozo sugere que esta é a imagem do “homem visto de fora”, ou seja, o  apagamento  de  Narciso  ou  o  que  lança  o  homem  moderno  no  seu  maior impasse. O que se pode ler aí é que toda imagem apenas re-­‐expõe o que resta porque ela é antes e depois do visível e que todo visível ainda não é uma imagem ou, mais intensamente, que todo visível nunca é uma imagem. Tanto que ele escreve,  no  final  do  poema,  uma  demonstração  daquilo  que  resta  depois  da passagem do trem: “pousado no último chão / um vento sombrio”. 

 

       É  um  pouco  por  isso  que  o  estudante  é  ao  mesmo  tempo  o  estúpido,  o atarantado, lembra Agamben; e é por isso que estudo e assombro são termos aparentados: “aquele que estuda encontra-­‐se no estado de quem recebeu um choque e fica estupefato diante daquilo que o tocou, incapaz tanto de levar as coisas até o fim, como de se libertar delas.” Estudo é ainda, muito mais, perder e perder-­‐se. Às avessas é também tornar-­‐se lúcido; mas é principalmente apaixonar-­‐ se e morrer um pouco.

 

2.

        O filme de Aline Portugal e Julia de Simone – Estudo para o vento –, seguindo a cartografia do vento no sertão do nordeste brasileiro, lugar sem memória plana, insere devagarinho a impertinência de nossa posição atarantada nesse mundo,  isto  é,  aquilo  que  somos  e  o  quanto  estamos  completamente inseguros  em  relação  a  tudo.  É  Franz  Kafka,  em  O  passageiro,  quem  indica  um começo definitivo a esse impasse: “Estou em pé na plataforma do bonde elétrico e totalmente inseguro em relação à minha posição neste mundo [...].” E não custa lembrar que Walter Benjamin disse, com força, que Kafka não construiu imagens.

 

        Para seguir com o impasse, Estudo para o vento parece dividido – como um déjà vu, uma lembrança do presente – em três tempos. Um primeiro, que começa numa rua breve de pedra e com inclinação para a direita, quando um homem passa vertiginoso e com muito esforço impondo sua bicicleta, carregando uma enxada e desengonçado; depois, um outro, a pé, de camisa quadriculada e chapéu de chuva, seu contrassenso, caminha também desengonçado e roça lentamente a mão direita em alguns pontos de apoio imperceptíveis: um tronco cortado, um poste e, principalmente, no que sobra da rua, o bafo. Há barulho de galinhas, de passarinhos e de um motor. E nada mais se move. E isto é o bafo.

 

3.

        O corte para um segundo tempo vai a um encontro descabido entre dois homens que não conseguem tirar os olhos da câmera, duas crianças que correm uma para cada lado, a presença imponente de uma motocicleta e um caminhão de passagem. São as máquinas de ilusão tentando moer o bafo. Mas, quando todos saem de cena, é o que sobra como “forma vazia”  que reabre o jogo. E aí, o filme sugere uma alegre impaciência-­‐paciente do que é vivo e dos objetos, numa contradição, entre o bafo e o vento que não vem.

 

        A  opção  até  aqui,  me  parece,  ainda  é  pelo  visível  e  se  dá  no  gesto corriqueiro que vai desde o cão tomando um restinho de sombra sob um carro até algumas roupas paradas num varal e uma série de cadeiras de balanço: solitárias sob uma árvore, com um homem, com uma criança que se empurra com o pé na parede e com uma senhora que se abisma numa delas como se fosse um tableau vivant tardio de uma temporalidade absolutamente perdida e sem memória. O que se tem até aqui é a manutenção do impasse entre nossa posição insegura e a espera [espera que não é senão um gesto radicalmente imóvel, por isso político, para a esperança].

 

4.

        Um terceiro tempo, agora diante do assombro, ou seja, numa opção pelo que é antes e depois do visível, vem com o choque da cena de um cata-­‐vento e, em seguida, a entrada definitiva do vento: um coqueiro, o céu, as nuvens, o chão, as casas, uma menina-­‐uma toalha-­‐e-­‐um varal numa espécie de parangolé festivo e um zunido que insiste em narrar como “forma vazia” e distraída “a velha história do abandono e do desprezo dos ventos”. O vento é aquilo que, de uma vez, encerra o bafo e pode ampliar o impasse daquilo que somos.

 

        Estudo para o vento é, assim, uma bonita confirmação de que o vento é um esquecimento inesquecível, uma voz, uma queixa velada e, mais ainda, que há uma “lei da boa vizinhança” – como sugere Aby Warburg – naquele que pratica o estudo porque está sempre a favor de uma nova descoberta. E nesse gesto confirmado para o assombro, o do estudante, como o que está na delicadeza de composição conjunta desse pequeno filme forte, podemos começar a entender devagarinho o que Cervantes montava em seu cinema quando nos apontava a lança  alucinada  da  imaginação  do  estudante  Alonso  Quijada  e  sua  biblioteca íntima: do quanto “as imagens que amamos não podem nos salvar”.

 

 

*  é  poeta,  professor  da  Escola  de  Letras  e  do  PPGMS  [UNIRIO]. Publicou,  entre  outros,  ‘Quando  todos  os  acidentes  acontecem’, ‘Jogo   de  Varetas’   e  ‘A  forma-­‐formante   [ensaios   com  Joaquim Cardozo]’.