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Frineia

17' . HD . Cor . 2012 . RJ, Brasil

Dos paradoxos do amor, da beleza e da arte

Por Camila Vieira*

 

Existe um limite tênue entre dois estados que poderiam ser opostos, mas se complementam em Frineia: o arrebatamento do amor, da beleza e da poesia e o minimalismo de sua encenação fílmica. O início já seria um anúncio da configuração deste tensionamento: um diálogo entre uma voz masculina e uma voz feminina, que se expressa como uma declaração de amor com palavras grandiloquentes, embriagadas por uma explosão de sensações; e ao mesmo tempo, a supressão de qualquer imagem por uma tela preta, que evita algo mais a ser acrescentado à fala. “Seria melhor parar de viver do que viver sem amar” – a frase é repetida pelas duas vozes serenas, quase como um sopro, antes do breve plano de dois corpos abraçados.

 

O curta de Aline Portugal é como um diapasão entre o extremo de um ideal romântico e a contenção da sua forma. Talvez a força de Frineia esteja neste lugar ainda confuso de elevação e imponência – não é a toa que há uma imagem da cidade que se eleva como a música – e a concretude dos corpos passivos, quase imóveis. O fim de uma relação, um basta, um “não quero mais” nunca são pontos de partida para um melodrama. Não há gritos, nem choros copiosos. A cena não se desorganiza, porque todo o peso do drama já está na palavra. Nos diálogos entre os dois casais em crise, há diferentes posicionamentos sobre o amor e a beleza. São modos distintos de racionalização em torno do tema. As divergências de argumentos carregam afirmações e negações. O choque entre os pontos de vista enfatiza a distância entre os corpos. O que é possível dizer quando já não há mais amor? O que é possível dizer quando ainda há amor, mas a um terceiro?

 

Resta a parcela de concretude que irá ultrapassar as disputas em jogo. Tal condição é dada a perceber pelo próprio mito de Frineia, que o filme recorre como referência. A cortesã grega fora acusada de profanação, mas libertada graças a sua beleza. Trata-se de um paradoxo: a mesma beleza que agride também encanta. Foi preciso o corpo de Frineia ser exposto violentamente ao tribunal para que ela fosse absolvida. A palavra/o logos já não faz mais sentido diante da fruição do belo. A ruína de Frineia é também sua salvação. O amor e a beleza ultrapassam o entendimento.

 

Um encontro acontece. Um outro amor nasce. Uma nova possibilidade de vida surge. “O amor talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada” – eis a frase arrebatada da poesia de Rainer Maria Rilke. Ele se vai; ela fica ali. Há um caminho entre o desistir e o permanecer. Mesmo que difícil, é necessário se doar. Também não seria assim a relação com a arte? Esta entrega amorosa, tão próxima ao sublime, que a mulher no filme alcança ao ouvir uma ópera? Frineia é então um gesto de amor, um sentir profundo, uma respiração penetrante. O gesto pode ser solitário, mas não exclui o convite a uma relação. Ainda há o olhar da personagem para a câmera. Ainda há o pacto com o espectador.

 

*Camila Vieira nasceu em Fortaleza, Ceará. É formada em Jornalismo, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), e Filosofia, pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Atualmente cursa doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Pós-Eco da UFRJ). Foi aluna do Curso de Realização em Audiovisual da Vila das Artes. É integrante da produtora Palinoia Filmes, criada em 2013, em Fortaleza. É crítica de cinema desde 2004, com textos publicados no jornal O POVO (Fortaleza-CE) e no site especializado Sobrecinema.


Crítica na Folha de Pernambuco

por Luiz Joaquim

 

"Logo depois, a série 2 do seg­mento Foco mostrou quatro cur­tas-metragens inéditos. Com des­taque para o divertido 'Meu Ami­go Mineiro', feito pelo cearen­se Victor Furtado (com o minei­ro Gabriel Martins), e o belo, ri­g­oroso e preciso 'Frineia', da ca­rioca Aline Portugal. É belo pe­­la leveza com que aborda um tema intraduzível chamado 'a­­mor'; é rigoroso pela opção não naturalista em construir sua narrativa; e é preciso por a­tin­gir em cheio o espectador com um texto fatal (que inclui Rai­ner Maria Rilke) que se refor­ça no uso certeiro da imagem."

 

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Crítica na Filmes Polvo

por João Toledo

 

"O filme de Aline, por um lado, abre mão de uma estruturação narrativa mais próxima do classicismo, ou que dê importância para elementos encadeadores. Há uma espécie de desidratação desse efeito construtivo de uma narrativa como desejo de se chegar a uma essência. Parece um processo lento, cauteloso, de destilar a forma para que nada fique diluído em excessos desnecessários. Há um certo parnasianismo ali, sobretudo numa espécie de sacralização da forma, da busca por um absoluto, um certo preciosismo, controle métrico, vontade de precisão – mas ainda assim a forma está marcada por uma confusão romântica. Ali, então, arte e indivíduo se fundem e já não sabemos se falam de intimidade ou de uma política do belo. Cambaleamos entre o pessoal e o coletivo."

 

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