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Mamulengos

19' . HD . Cor . 2012 . RJ, Brasil

Nota da diretora

 

Sendo aliado do tempo e tendo a liberdade de criação, o artesão realiza os aspectos essenciais desse modo de produção que visa a elaboração não de uma obra exata, mas sim de uma obra perfeita.”[1]

 

 

O modo de produção artesanal é aquele em que o artesão reflete e planeja sobre seu trabalho, só obedecendo - ou só tendo que obedecer – os próprios ritmos do corpo. E ainda que o trabalho avance lentamente, “o tempo nele utilizado é autenticamente tempo vivido”[2]. Sua obra não é exata porque não atende a um padrão utilitário previamente definido. Mas sim perfeita, porque condiz com o sentimento de satisfação, da parte de quem cria e da outra, que usufruirá da obra.

 

Voltemos ao labor do artesão para pensar o filme. Mamulengos é construído sob a ótica do trabalho artesanal. No ambiente de uma casa, pequenas ações realizadas preponderantemente por crianças e jovens vão compondo o elo que os unem. Aqui não é tanto o tipo de matéria sobre a qual eles trabalham (uma vez que ela é também diversa), mas a forma de trabalho que interessa: autônoma, processual, disciplinada porém respeitando os tempos internos de cada corpo.

 

É na fala da menina Isabel que aparece explicitamente a questão acerca do trabalho e da arte. Sua fala pueril carrega um ar debochado, ironizando aqueles que escolhem as profissões mais tradicionais, aqueles que precisam gastar muito tempo estudando ou que entram na escola e nunca terminam (“você morre e nunca termina”, segundo ela). A frase pode parecer um tanto ingênua, mas diz muito sobre a afirmação de um lugar de fala que exalta o modo-de-vida-artista em detrimento de um outro mais valorizado socialmente, que implica em uma formação tradicional de estudo e necessariamente na passagem de etapas e níveis para se conquistar a posição desejada em uma trajetória de sucesso. Do seu olhar de criança ela vê os constrangimentos implicados no trabalho enquanto dever - onde o tempo aí é regulado por normas e horários.

 

Cinematograficamente, as imagens carregam mistério: corpos recortados, cenas escuras, silêncios, tensão. O fora de quadro participa ativamente pela banda sonora, mas também por uma certa pressão que os outros personagens – ou mais precisamente, a falta deles – exercem sobre o plano. Há algo no fora que não estamos vendo.

 

No interior do plano, o trabalho refletido em ações as mais diversas: o cuidado com o cachorro, a limpeza do chão, o ensaio musical, a passagem da cena, o entortar do arame e o devaneio final.  Ações que se complementam, mas não necessariamente apontam para uma forma clara, finalizada.

 

A escolha em restringir o filme aos acontecimentos na casa, os ensaios, assim como todo o trabalho que existe fora das apresentações no palco, se baseia na crença de que existe algo de muito mágico acontecendo ali. A intenção do filme foi, dessa forma, captar o milagre presente no mínimo, no invisível, no despretensioso, nas forças coesas que existem entre aqueles corpos e os faz coexistir em um universo comum. Algo que não se enxerga normalmente sobre o tablado e sob os holofotes. Pois nesse momento os artistas buscam a execução de um repertório já definido. Movimento esse importantíssimo e com suas dificuldades intrínsecas, em que o desafio do artista é a expressão em seu grau máximo. No entanto, o que mais me interessava à época eram justamente o silêncio, os movimentos mínimos, vazios, tortos, plenos de arestas e singularidades.

 

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”[3].

 

Enfim, a estrada conclama seus passageiros, que partem como miragem a transformar os solos onde passam e as vidas dos que permanecem. 

 

 

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Recomendo o encontro (pelo filme e pelo palco) com essas pessoas encantadoras, cheias de liberdade e garra no seu fazer-viver artístico. O encontro pelo filme esta aí, aos que tiverem paciência e curiosidade para vê-lo. A isso não se exclui o encontro pelo palco, através das apresentações da Cia. Carroça de Mamulengos em todo o país (mais informações podem ser encontradas através do facebook e site da companhia).

 

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[1] REZENDE, João. A tarefa da arte – apontamentos para o redimensionamento do conceito de trabalho. Poiesis, Niterói, vol. 3, p. 31-19, 2001.

[2] ibidem

[3] ROSA, João Guimarães. O espelho. In: Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988.