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O Porto

21'. HD. Cor. 2013. RJ, Brasil

Um porto de tempos sincrônicos

por Aline Portugal [1]

 

O Rio de Janeiro vive um projeto acelerado de mudanças, que visa transformá-la em

“Cidade Olímpica” até 2016. Entre as obras de grande porte, que tem atraído

investimentos milionários, está a do Porto Maravilha – que, segundo a Prefeitura, é “o

maior projeto de reforma urbana do Brasil” [2].

 

Nesse processo de reorganização espacial e simbólica, várias disputas emergem à superfície do tecido urbano. Novas partilhas do território são elaboradas diante desse reordenamento, e com elas, novos modos de subjetivação. Afetos, corpos e formas de vida buscam se afirmar e constituir território. Da mesma forma, as imagens produzidas sobre esse espaço são também um campo de disputa, na elaboração de formas de ver, dizer e sentir.

 

O Porto [3] concentra sua investigação na região portuária do Rio. É um filme turvo. Se a cidade vive um momento de intensa visibilidade midiática, O Porto traça outro percurso. Opta pela opacidade, a começar pelas imagens embaçadas. Há algo entre elas e o mundo que impede uma adesão direta: um aparato material à frente da lente que tira a sua nitidez, construindo um mistério que não se dissipa.

 

Nesse gesto, o filme guarda uma distância das coisas que filma. Parece estar em desacordo com o seu tempo, e opta por fazer dele uma investigação. Em uma superposição um tanto fantasmagórica, revolve passado e futuro buscando seus rastros no presente. Os diferentes tempos se tornam sincrônicos, coexistem em um mesmo espaço-tempo: a região portuária do Rio de Janeiro em 2013.

 

O passado das escavações. Da superposição de portos, que faz do Porto Maravilha uma espécie de deja-vu. O presente como um não-lugar, habitado apenas por uma boca escancarada, máquinas gigantes, luzes vermelhas e imensos transatlânticos. A medida aqui não é humana. Esta é reservada a um rendering macabro, em 3D, onde seres programados habitam jardins insípidos e um trem silencioso resolve os problemas de circulação da cidade.

 

A esta cena reserva-se um momento de maior transparência, tanto na imagem, nítida, como pela identificação de que projeto de cidade está em curso e sendo ali tensionado. O Porto opera um agenciamento: desloca a imagem publicitária da Prefeitura de seu lugar institucional e a aproxima da ficção científica. Gritos imprimem um tom de desespero.

 

O Porto carrega um mal-estar generalizado, que passeia por todas as temporalidades, numa espécie de eterno retorno. Mas o que volta não é o idêntico, é o princípio idêntico naquilo que difere. E o princípio aqui é o da tábula rasa, que soterra passado e presente em prol de um projeto de futuro:

 

No início do século XVIII foi construído na região o Cais do Valongo, para desembarque de escravos. Em meados do XIX, ele foi soterrado para a construção do Cais da Imperatriz, para a recepção da futura imperatriz que se casaria com D. Pedro II. Menos de um século depois, em 1910, o Cais da Imperatriz foi aterrado no contexto das reformas de Pereira Passos, com o material do arrasamento dos antigos morros do Senado e do Castelo, onde a cidade nasceu. Hoje é este porto que está obsoleto. Mas em breve vai se tornar Porto Maravilha!

 

Numa espécie de avesso do futurismo, o filme faz dessa exclamação um terror que se abate sobre a cidade, ligado a esse círculo do tempo. Ao revolver o que esteve soterrado – passado que emerge das escavações arqueológicas e futuro virtualizado no vídeo da Prefeitura – o que aparece, no filme, é o assombro. Um assombro que percorre as diversas camadas de terra e tempo.

 

Essa sensação é reforçada pelo desenho sonoro. A música dobra o incômodo buscado nas imagens, reforçando a atmosfera pós-apocalíptica – reiterada pela composição de ruídos de máquinas e um grave que perpassa o filme todo. Uma dimensão distópica.

 

No último plano, somos convidados a olhar de um barco que se afasta. Vemos a cidade cada vez menor. O desenho dos prédios distantes. Ouvimos o som do mar. Uma tranquilidade melancólica. É o único momento em que nos afastamos daquele espaço onde o filme imerge. Partimos. O Porto acaba, e fica a dúvida – que parece ser também uma possibilidade de escolha: se é “fugir, mas ao fugir procurar uma arma”4, ou a impossibilidade de viver nesse espaço de replicantes que o filme anuncia como porvir instalado no presente.

 

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[1] Aline Portugal é realizadora, roteirista, sócia da Mirada Filmes e mestranda em Estudos de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense.
[2] Trecho extraído do site http://www.cidadeolimpica.com.br/areas/infraestrutura/ Último acesso em 09/07/14.

[3] O Porto (21’, 2013), filme dirigido por Clarissa Campolina, Julia De Simone, Luiz Pretti e Ricardo Pretti. Produção: Mirada Filmes, Alumbramento, Teia e Toada.

[4] DELEUZE e PARNET, 2004, p. 164 

 



Crítica na Revista Cinética

Ideias e formas, matéria e memória
por Victor Guimarães

 

"Junto da tela preta que abre o filme, a melodia triste e repetitiva das máquinas de construção nos instala em uma paisagem sonora bastante conhecida da urbe, ao mesmo tempo em que começa a nos transportar para a cidade pós-apocalíptica que será a do filme. O som cotidiano é transmutado em gesto de cinema, que encontrará no tratamento material das imagens sua contrapartida visual: os primeiros planos de O Portoconferem à paisagem da região portuária uma aparência aquática, como se uma câmera submarina – vinda de um outro tempo – viesse redescobrir uma arquitetura pretérita, uma Atlântida carioca uma vez perdida e reencontrada na estranheza do olhar. Tradução cinematográfica da letra de Chico Buarque: “E quem sabe, então/O Rio será/Alguma cidade submersa/Os escafandristas virão/Explorar sua casa/Seu quarto, suas coisas/Sua alma, desvãos”. Essa câmera escafandrista encontrará as pichações nos viadutos, as alegorias carnavalescas que se movem lentamente, um vulto que se movimenta sob uma luz no fim de um túnel, as pedras de uma construção abandonada a meio caminho. E então, de súbito, um som eletrônico lentamente se metamorfoseia em funk, e a cidade submersa torna-se luminosa, vibrante – apenas para tornar-se novamente aquática na imagem seguinte (que nos mostra uma placa de 1843, comemorativa do “embelezamento” do antigo Cais do Valongo para a chegada de D. Tereza Cristina). Expõe-se o vestígio de um processo histórico que se repete, na sucessão de mentiras constitutivas de nosso afã civilizatório. A profecia amorosa de Chico encontra sua reinvenção distópica: “Sábios em vão/Tentarão decifrar/O eco de antigas palavras/Fragmentos de cartas, poemas/Mentiras, retratos/Vestígios de estranha civilização”. "

 

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Texto da curadoria do FICUNAM 2014

por Roger Koza

 

""Em 'Não estamos sonhando', Luiz Pretti já havia formulado a secreta, ainda que evidente, relação entre arquitetura e política. Naquele filme, ele até imaginou como a lente de uma câmera funcionava como um detonador capaz de derrubar certos edifícios paradigmáticos de um projeto idílico moderno. Agora, acompanhado por seu irmão e outros colegas, faz um panorama do porto do Rio de Janeiro e volta ao mesmo tema, também sob a ótica histórica e futurista. “O Porto” começa como um concerto de musica concreta portuária. Mais adiante, os apitos dos barcos e outros sons ambiente vão se somando a uma peça musical digna de Ornette Coleman, que transmite tensão e caos, um procedimento musical já utilizado em “Os Monstros”. Se a trilha sonora evoca instabilidade e violência, o conceito visual alude à transparência da representação e evoca uma realidade fantasmagórica. A nitidez do real é impossível. O porto se mostra como um lugar de trânsito, danças “primitivas”, escombros de velhos projetos, turismo de ricos, História passada, topologia do capitalismo avançado. Um travelling lateral de direita à esquerda sobre os transatlânticos à beira d’água, e uma justaposição de panorâmicas reais e simulações gráficas sobre a totalidade do porto são os momentos nos quais o discurso crítico do filme se formula com maior veemência. Filme fascinante sustentado por uma poética livre e raivosa."

 

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Crítica na Revista Cinema Proletário

por Julio Cruz

 

"A arte pode funcionar, muitas vezes, enquanto uma representação de algo. Ela também pode se comprometer em subverter seus assuntos. O Porto de Clarissa Campolina, Julia de Simone, Luiz e Ricardo Pretti faz ambos, e transmuta sua estética em uma forma de potência política. Assim, se apresenta O Porto, um curta-metragem que quebra e remexe, por intermédio de imagem e som, e da sucessão de tempos e movimentos, os graus de inequidade que existem nessa grande metrópole brasileira. Porém, pela incognitude de algumas imagens, ele se torna um processo alegórico, um representante de toda uma situação política e social."

 

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