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Sinfonia

8' . HD . Cor . 2010 . RJ, Brasil

Sinfonia da memória e do devir

por Auterives Maciel

 

 

Sendo sucessiva e simultânea, a música é capaz de ritmar a repetição

e a diferença, o mesmo e o diverso, o contínuo e o descontínuo.

Desiguais e pulsantes, os sons nos remetem no seu vai-e-vem ao

mesmo tempo sucessivo e linear mas também a um outro tempo ausente,

virtual, espiral, circular ou informe, e em todo caso não cronológico, que

sugere um contraponto entre o tempo da consciência e o não-tempo do

inconsciente.

                                                                                      José Miguel Wisnik[1]

 

 

A princípio, o curta-metragem Sinfonia, realizado por Aline Portugal, João Costa, Julia De Simone e Julia Mariano, aparenta ser apenas uma narrativa sobre a construção de um violino e a musicalidade dele extraída. A partir de uma estrutura de montagem paralela, os diretores intercalam as diversas etapas da vida do instrumento, desde o seu nascimento pelas mãos de um luthier, até a execução de uma música a partir dos ensaios de um aprendiz.

 

Entretanto, esta é apenas uma primeira leitura. Se aprofundarmos a nossa atenção sobre o filme, percebemos que essa estrutura é apenas um pretexto para a apresentação de algo mais profundo, que embora coexista com a história, dela se distingue. Sinfonia é, neste aspecto, também uma abordagem da memória. Não a memória recuperada através de lembranças, nem tampouco algo que se evidencie na narrativa. O filme não rememora o passado, nem o comemora. Traz, isto sim, o passado para a dimensão do presente, fazendo-os coexistir na sinfonia fílmica.

 

A coexistência é, a princípio, apresentada através de uma aproximação: os autores fazem com que o passado e o presente estejam lado a lado, através de uma estrutura que intercala ações que acontecem em diferentes tempos - a construção do violino e sua posterior execução.

 

Mas a coexistência do passado com o presente de fato acontece através do desenho de som, que ao mesmo tempo harmoniza e desorganiza os ruídos da construção do instrumento com os sons dele extraídos. Já não há mais alternância, e sim justaposição. O contínuo sonoro alinhava de tal forma o passado com o presente que os tornam indiscerníveis, compondo uma sinfonia transtemporal. Na realidade, o contínuo sonoro sugere uma coexistência de inúmeros presentes no interior do passado. A trilha funciona como uma memória que rompe com a sequência progressiva, fazendo com que o passado apareça como imagem sonora. Uma memória que se caracteriza fundamentalmente por reter os presentes que passam, fazendo-os coexistir com o presente atual. Sinfonia é o nome próprio dessa coexistência.

 

Mas o que no filme é presente atual? O final. É ele quem contempla essa dimensão do filme e de certa forma a sintetiza, quando a melodia de Vivaldi é invadida por sons de todas as etapas do processo de construção do violino, simultaneamente, culminando em uma polifonia de ruídos que integra a constituição da própria música que está sendo tocada.

 

Essa operação contempla a dimensão processual do instrumento e da música, à medida que inclui a memória na própria composição. O arranjo dos ruídos com a música que nasce é feito através da construção de um ritmo próprio, que se distingue da pura melodia. É ele que faz com que o passado e o presente, embora coexistindo, engendrem o porvir da música. Eis o desafio que se apresenta como motivo maior do filme: não é, tão somente, apresentar a coexistência, mas tomá-la como criação. Tudo se passa como se da mistura dos tempos fosse possível extrair um tempo novo. Um puro devir.

 

Referências bibliográficas:

BERGSON, Henri. Matéria e memória. Martins Fontes. São Paulo, 1999.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. Brasiliense. São Paulo, 1990.

WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. Companhia das Letras. São Paulo, 1999.

 

[1] WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. 2a edição. Ed. Companhia das Letras. São Paulo, 1999. p. 27/28